“A violência pode acontecer no segundo seguinte ao riso”

Leia o relato da jornalista paulistana Camila Caringe, 30 anos, sobre a violência que sofreu em casa, da pessoa que amava e com quem convivia diariamente.

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Filme A Barraca do Beijo,2018. Direção: Vince Marcello

 

“Foi só um arranhão. Primeiro ele me arranhou, mas foi só de leve. Ele não queria. Eu fui teimosa, ele não gostou, me pegou pelo braço, puxou, marcou um pouco, mas foi só isso. Um arranhão. Ele pediu desculpas. Estava nervoso. No outro dia foi uma mordida. Se fosse, sei lá, de um estranho, eu diria ‘Foi agressão’. Mas era ele. Meu melhor amigo, meu amor, meu namorado. A gente sempre se mordia brincando ou transando. Naquele dia foi na briga. Ele ficou bravo, me mandou embora, eu fui. Quando me virei de costas, ele pulou em cima de mim e mordeu meu ombro. Ficou a marca dos dentes. Mas eu não tinha certeza sobre o que aquilo significava. Era ele, não um estranho. Tudo bem. Foi só uma mordida. Numa noite, ele puxou meu cabelo. Mas também fazia isso quando me beijava. Era confuso. Quando tentei me afastar, ele jogou o sofá na minha frente e fechou minha passagem. Mas estava nervoso.

Lentamente, fui perdendo o referencial. O que era agressão foi ficando difuso, sem limites. Fosse um estranho, eu saberia dizer. Com ele não. Éramos amigos, depois amantes, era uma relação ímpar, uma intimidade sem precedentes, eu sentia a dor dele, ele sentia a minha, estávamos sempre juntos. A fronteira de onde terminava um e começava o outro havia sido borrada fazia tempos, quando ele sentia ciúme dos meus amigos sutilmente e orientava onde eu estaria e com quem, a que horas, pra quê. Aquele primeiro arranhão, pensando agora, inaugurou uma nova fase da nossa relação. Uma etapa na qual eu abriria a porta da cozinha e o veria riscar o próprio braço com uma das minhas facas. Meu amigo de infância, o menino dos meus olhos, foi lentamente virando meu raptor. Convivíamos desde os 9 anos de idade, crescemos juntos, mas eu não o conhecia.

Algumas pessoas acham que existe uma certa conivência ou voluntariedade na submissão em um relacionamento abusivo. Não. O que há é uma tentativa ingênua de negociação que nunca avança, porque sempre para no meio do caminho. Enxergar um homem que é capaz de atrocidades, mas também de docilidades, que se ergue e se rende como qualquer ser humano. Mas vai mais alto quando se levanta. E mais baixo quando desce.

Como sou jornalista, ele me dizia que tinha muito medo de que um dia eu contasse a nossa história, que alguém soubesse o que ele fez comigo, que isso ficasse de alguma maneira registrado na trajetória dele. Na época, claro, não havia intenção. E se conto hoje que um dia ele deslocou os ossos de três dedos da minha mão direita com um chute não é por vingança ou para afligi-lo. Mas para dizer a quem não entende o que ele gostaria que eu dissesse sobre ele: o meu agressor é capaz de gestos generosos e solidários. Ele é simpático e bem-humorado. A parte que ele não gostaria que eu contasse é que agressores não são monstros o tempo todo. E que a violência pode acontecer no segundo seguinte ao riso, sem motivo, porque o gás acabou ou porque o barulho das teclas que digito o irritou. Um homem violento pode fazer coisas boas. E fazer coisas das quais não tenho notícia nem no extremo da selvageria: bater na mulher que está esperando um filho dele.

Por mais contraditório que possa parecer, ele me ajudou quando me engravidou. O afeto que primeiro me paralisou acabou por mobilizar. Aos cinco meses de gestação, ele me jogou no chão e sentou em cima da minha barriga. Aos oito, lançou um sapato no meu rosto que deixou a marca da sola no lado esquerdo. Aos nove, arrombou a porta do banheiro para onde corri, segurou meu cabelo e bateu minha cabeça na parede seguidas vezes. Quando minha filha completou 6 meses, meu amor pela criança superou em muito minha paciência com ele. Ficou claro que eu era a chance que ela tinha de ter uma vida equilibrada, sadia. Então fiz o que precisava fazer: me separei dele.

Se ele lesse este texto antes, não aprovaria. Ele gostaria que você soubesse que ele não é uma pessoa ruim. E eu ressalto: as pessoas não se dividem em grupos de boas e más. Agressores são homens comuns, socialmente produtivos, trabalhadores, contribuintes, risonhos. O conjunto de crenças, o grau de inconsciência e as motivações que levam um homem a agredir são muitas, variáveis, complexas e imprevisíveis. Eu faço o que posso, escrevo para as mulheres. O que nos leva a um relacionamento abusivo também é difícil de explicar. Somos das mais diferentes origens, já que a violência doméstica é bastante democrática. Mas uma vez em relacionamento violento, não existem muitos caminhos. Eu diria que são dois, basicamente: a morte ou a saída. Enquanto você está viva, há saída, mesmo quando parece que não.

Admito: um dia chorei achando que pra mim não havia mais, que eu morreria sufocada pelas mãos que apertavam meu pescoço fazendo ameaças. E poderia ter morrido.

Não é por escolha que uma mulher é abusada. Mas só uma decisão firme e lúcida pode tirá-la do lugar estreito. É o que eu desejo para a nossa filha. Que ela busque lugares amplos quando se vir em um lugar estreito. É o que eu desejo para todas as mulheres. Mas para ela, especificamente, quero ser o exemplo.”

Retirado de: Nova COSMOPOLITAN 

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Relato pessoal: sou aos 18 o que esperava ser aos 12?

Escrevi uma carta pro futuro para mim quando eu tinha 12 anos. Bom… este foi o ano de abri-la e depois de 6 anos e um pouquinho a surpresa: minha vida continua “maluca, corrida e estranha” como a eu de 12 anos descreveu. Nada mudou. Não em relação ao contexto geral. Claro, que hoje estou na faculdade e não no ensino fundamental, ainda tenho algumas amigas do passado, arranjei outr@s amig@s, uns abusivos outros não, assim como antigamente. O amor platônico que eu tinha saiu do armário. E eu achando que aquela primeira paixão avassaladora seria eterna! Ri da inocência das coisas que escrevi, depois as desejei de volta. Apesar da vida continuar na mesma, tenho a sensação que era mais feliz naquela época! Mas, será mesmo?

Eu tinha pouca idade, mas, já passava por tantos pormenores, e aquilo tudo era muito duro para mim. Hoje, com outra cabeça, não me abalaria tanto com os acontecimentos, contudo, sei que foi a adaptação causada pelas pisadas da vida. Aquela menina de 12 anos não fazia ideia do que ainda estava por vir de bom ou ruim.

Na carta há tantas esperanças! mesmo com tudo tão turvo e incompreensível, com tantos medos sobre o que me esperava no futuro. Penso: “Onde está essa esperança?”, “Onde foi parar a minha fé?”. Hoje em dia, eu só vou vivendo sem maiores expectativas. Cansei de me decepcionar. Hoje em dia, eu espero tudo de todo mundo. As pessoas provaram ser totalmente imprevisíveis. Ao longo desses 6 anos eu descobri, aprendi e resisti a tantas controversas humanas.

Ao olhar para trás, a maioria das minhas amigas eram abusivas, e eu as amava com meu coraçãozinho ingênuo e me sentia um lixo por nunca ser o suficiente para elas. Como é estranho olhar para trás e perceber que as relações fraternais, parentais, amorosas que tive e que ainda tenho, cada uma delas foi colocando um tijolinho a minha volta e eu fui me escondendo e me isolando da vida, das pessoas, do sentimentos, fui me protegendo, me distanciando e BANG!!!! Quando vi, 6 anos depois tenho tantos problemas de saúde mental que eu nem sei…

Antes de iniciar a terapia e até no inicio, eu vivia me perguntando como vim parar aqui. Agora, depois de tantos aprendizados, eu entendo, compreendo, consigo enxergar como cada situação contribuiu. Mas, sabe qual a parte mais chata? Ter consciência do problema não resolve o problema. E mesmo que eu possa reconhecer, eu não consigo sair!

Não tem noção de como é difícil desfazer crenças autodestrutivas que as pessoas a nossa volta regaram e nos ensinaram a regar e tudo passou a ser um processo automático. É como se fosse o certo a fazer, me menosprezar e diminuir, porque foi assim que eu aprendi a lidar comigo, a me enxergar. Ao longo dos anos, as relações abusivas me fizeram acreditar nisso, eu insegura e vulnerável (…), acreditei . Ainda consigo ouvir as palavras das pessoas, consigo ver os rostos delas, consigo ver o olhar de desprezo estampado na cara, consigo me ver implorando por atenção e pedindo desculpas por ser eu mesma, como se ser eu fosse a coisa mais errada do mundo, e assim eu cresci acreditando. Ser eu é ser a pior pessoa do mundo. E como eu não conseguia me desvencilhar de mim, me odiei, odiei tudo em mim e ainda odeio( não tanto quanto antes, a terapia tem me ajudado muito nisso), odeio tudo que diz respeito a mim e não reconheço nenhuma das minhas conquistas. Para mim, todas elas foram pura sorte. Se alguém gosta de mim e me diz isso, ou me presenteia, me sino muito mal, porque não mereço nada disso, não sou digna de afeto, eu não sou uma pessoa boa, eu não presto!!! E ainda sou uma ótima atriz, falsa, porque consigo fazer as pessoas acreditarem que existem coisas boas aqui, no entanto, eu sou um grande vaso de merda. Atriz. Atriz em meu próprio corpo, foi o que sempre achei de mim, tanto por fingir sentir, ser amável, educada e tanto por nunca fazer nada que eu realmente queria, que realmente gostaria, que realmente me fizesse bem, passei a vida me anulando, fazendo o que as pessoas queriam, sejam eles quem quer que sejam. Minhas vontades e desejos sempre foram indignos de serem realizados, eu alimentei isso, as pessoas a minha volta alimentaram isso. Aprendi a me renunciar. Aprendi a não criar gostos, a não alimentar desejos, expectativas, pensamentos , opiniões, porque normalmente eles não eram levados em conta, eram totalmente menosprezados, se diluíam em mais dor e decepção. Passei todos esses anos olhando pra baixo e odiando a imagem no espelho, me sentindo feia, incapaz, insuficiente, louca, louca, porque era assim que me diziam que eu era quando eu deixava escapar minha espontaneidade, minha vontade de sair da caixinha e viver, sentir o sol, só um pouquinho. Me tornei indiferente. Tanto faz se coisas boas ou ruins acontecem, na verdade elas não tem mais esse nome pra mim, “bom” ou “ruim”, é só mais um acontecimento. “LOUCA. IDIOTA. Volta pra caixinha! Quantas opiniões ridículas! Que forma de pensar mais sem noção! Será que de você não sai nada de bom?” Não, não sai… é melhor eu ficar quietinha no meu canto e passar despercebida. Ser vista dói. E por mais que ficasse na minha, vinham as calúnias, as mentiras espalhadas, as amigas falsas, e a cada descoberta delas, eu desacreditava na vida, cada vez que eu vivia e entendia a maldade das pessoas, seja a minha volta, seja nos jornais as minhas esperanças quanto a bondade a humana desciam todas pelos ralo. Meu mundinho encantado da menina de 12 anos sumiu. Me vi dentro daquele lixo, afinal, eu sou humana e odiava minha humanidade, ela era a causa deu não conseguir fazer nada correto, nada de bom, por mais que tentasse com todas as forças, meus esforços valiam nada. Ainda bem que eu tinha pessoas muito amorosas a minha volta para reforçar mais isso, você não pode, não consegue, olhe só pra você, é mesmo uma idiota, ridícula, como pensou que poderia ao menos tentar? Me poupe da sua existência. E assim venho tentando poupar as pessoas de mim, dos meus pensamentos, opiniões, da minha aparência e da minha presença. Cada dia mais o mundo é estranho e inóspito para mim. Cada dia mais tudo que se distancia do meu colchão e dos meus olhos fechados, me corroem; abrir os olhos dói, sentir que ainda estou viva quando acordo é quase insuportável. Me perdoe Machado de 12 anos, mas não sou o sexo forte e decidido que você esperava ser nessa idade.

-Machado

Ps: Escrevi este texto a um bom tempo atrás e percebo que certas percepções sobre mim estão mais positivas, digamos. Lidar com a Depressão é um processo, ainda estou aprendendo. Contudo, sigo com minha companheira, fiel, não sei se por hora ou para sempre. Num dia somos amigas, noutro inimigas, em um dia nos dispomos a nos conhecer um pouco, em um outro somos completas desconhecidas e a cada dia convivemos, melhor dizendo, EU sobrevivo a ela.

Eu não te amei

 

 

Eu não te amei!

Não te amei quando preenchi diversas páginas do meu diário com teu nome,  tentando convencer a mim mesma que eu necessitava ser a melhor pessoa do mundo pra você.

Eu não te amei quando cada letra que escrevia eram pra você, por causa de você ou sobre você.  Eu não te amei em cada parágrafo, em cada frase, em cada palavra com afinco escolhida.

Eu não te amei quando perdoei cada brincadeira de mal gosto que você fazia só pra ver meu coração quebrar, meu mundo desabar…

Eu não te amei quando você me contou que permaneceu comigo por … e mesmo assim continuei ao seu lado, eu não te amei.

Eu não te amei todas as vezes que você me diminuiu explícita ou implicitamente.

Eu não te amei quando suportei seus ataques.

Eu não te amei todas as vezes que você deixava claro que eu só trazia coisas ruins para sua vida, e eu não entendia o porquê de você ainda estar ali.

Eu não te amei nas suas loucuras, nas suas inseguranças, nos seus questionamentos, desconfianças, ciumes, restrições…

Eu não te amei nas músicas tristes,

Na dor,

Na raiva,

Não te amei quando fiz …. por você,

Não te amei nos silêncios ou nas palavras impensadas

Não te amei quando me chamou de…

Fiquei com você pelo simples prazer de fazer da tua vida um inferno.

Porque eu realmente não te amei,

Descobri!

Eu só estava presa a um relacionamento abusivo.

-MACHADO

Quando eu acordar eu sei

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Yiruma – Moonlight

Quando eu acordar, eu sei, que tudo estará tão bem

Quando eu a-cordar as pessoas serão compreensivas

Quando eu acordar, quando eu voltar de mim, eu sei, eu sei, vai haver um mundo melhor, eu sei, as pessoas vão sorrir, pra… si e não vão lembrar de mim

Que alegria!

Quando eu acordar, eu sei, que esse quarto não vai existir e aquelas pinturas ali, serão reais

Vai dar tudo certo quando eu acordar,

Eu sei que vai dar-tu-do certo

Até lá eu pre-ci-so dormir

E eu vou…

dormir…

pra… mim

Quando eu acordar, eu sei, que a rainha vai surgir, vai me abraçar, eu sei, vai me ajudar a fugir daqui, vai sim… e eu sei que vai… e eu sei que vai sim…. suspiro*

Quando eu a-cor-dar, alguém me entenderá, Quando eu acordar, eu não vou mais precisar falar,

Quando eu acordar, eu sei, que não vou estar mais aqui, um lindo universo eu sei, serei a moça mais gentil dali,

Quando eu acordar, eu sei, que a-qui eu continuo a dormir, realizei meu sonho eu sei,

que era daqui sumir,

dormir…

– Machado

Preciso dormir

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Ouça “Preciso Dormir”

Porque quando eu durmo não tenho consciência

Porque quando eu durmo, eu não existo pra mim

Quando eu durmo eu não me preocupo, eu não penso…. Eu só durmo

*Suspiros

Sou limbo, sou esquecimento, sou nada, um nada puro, um nada inconsciente quando eu durmo

Quando eu durmo eu não sei quem sou quais problemas tenho… Eu não sei. Eu nem sei que não sei. Eu não lembro de nada e nem sei que não lembro.

Quando eu durmo, eu mal preciso respirar… Eu não preciso comer… eu não preciso enxergar…

Aaah! Quão bom é dormir

Preciso

Preciso dessa sensação maravilhosa pra sempre

Aah… os mortos…

Eles sabem

Preciso…

Dessa satisfação eterna

-Machado

Espelho

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Shatter Me Featuring Lzzy Hale – Lindsey Stirling

Ele é o que sou quando faz calor, parte de mim harmoniosa que não sente dor. Ele é o olhar pedinte que se esconde e que procura amor ao mesmo tempo, a calmaria de um dia tranquilo buscando alento. Somos iguais, porém de diferentes pais; adoça minha alma com teus abraços que duram tão pouco, desejando mais. Ele é o poema, eu sou rima. Ele é a chuva, eu sou o molhar. Ele é o céu que transborda em nuvens, eu sou pássaro para nele voar.
Somos espelhos um do outro sem nem saber.
Conhecemo-nos, amor meu, muito antes de o sol nascer.

-Laís Fernandes

Retirado de: Parafraseando-me

PS: Essa escritora, maravilhosa, tinha que ganhar um espaço nessa humilde página. Recomodadíssimo! Estou apaixonado por cada texto que compõe este blog.

-Machado