Voltando pra casa

Pensar. Pensar sobre o relacionamento acabado… é difícil! Me sinto como se estivesse em choque. Quero chorar para ver se passa essa sensação estranha dentro de mim. Quero botar para fora de alguma forma pois não tenho conseguido em palavras; pelo menos até esse momento. Eu havia esquecido como é escrever, perdi o tato; colocar palavras no papel… digitar letra após letra no teclado… – Por quê todo escritor tem que ser dramático ?

Ontem tive uma conversa como meu ex, (ex de apenas uma semana), é tudo tão recente e novo e estranho… eu nunca tinha passado por um termino de namoro… sempre ouvia falar, conversava com amigos, via os padrões se repetindo – achava inusitado – e bem… parece que os padrões resolveram se repetir comigo também… me vejo pelas circunstâncias, sei la, nem sei dizer, vivendo o mesmo padrão de termino dos meus amigos: terminar, conversar, querer voltar, conversar, aceitar… sei la de novo! quero dizer… é um pouco diferente agora do que eu ouvi falar antes…

Eu não sabia muito bem o que estava sentindo… estava sentindo muitas coisas que não conseguia distinguir… por isso a sensação de estado de choque, talvez. O estado em que tenho milhões de sentimentos misturados e mesmo assim, é como se não tivesse algum; pois, não consigo compreender-los ou nomeá-los… Mas… depois da conversa que tive ontem, sei la… me sinto melhor, sinto que estou começando a entender esse misto de sensações, que percebi, não seria possível compreender sem o meu ex. Ele é parte disso e não dá pra excluir a parcela dele no entendimento dessa história.

Falamos como nos sentíamos, e com receios, contamos da forma mais sincera que podíamos o que estávamos refletindo sobre a gente… e sei la… de repente, caí na real que eram as mesmas coisas… pelo menos usamos palavras parecidas para descrever. É estranho, e bom saber que não estou sentindo tudo sozinha. Esse emaranhado de sensações e coisas e pensamentos muito loucos e aleatórios… É bom ter meu melhor amigo pra falar. É bom ter a pessoa que construiu isso comigo falando como vem significando as coisas. E, mais uma vez… estamos construindo nosso termino, assim como construímos nossa relação, ou sei la, desconstruindo a relação e recolocando as coisas no lugar… quer dizer… nem tudo no mesmo lugar, porque mudamos – sentimos e sabemos disso, nos demos conta por nós mesmos – E não foram mudanças ruins, foram mudanças boas, muito boas, crescemos juntos… como era nosso objetivo desde o começo.

Então… eu falo, ele fala, eu reflito, ele reflete, a gente apresenta nossas conclusões e vamos entendendo isso tudo, juntos. Sei la… é estranho ? é ! É louco e sem sentido ? É demais!! Mas… conversamos tanto antes de começar, conversamos tanto durante e conversamos também pra terminar – decidimos ser amigos – que, sei la, acho que não poderia ser diferente agora. Temos pensamentos semelhantes a respeito das coisas que nos aconteceram e também do que fizemos acontecer…

É possível estar feliz e triste ao mesmo tempo? Estar grata e magoada? Estar esperançosa e frustrada? Sim… é como me sentia/ ainda me sinto. Contudo, a conversa que tivemos há poucos dias me ajudou a dar nomes as emoções; e gente… é muito bom nomear as coisas, a linguagem é realmente algo importante… traduzir essas coisas em palavras é reconfortante, aliviador.

Nosso termino foi lindo. Sim, foi lindo mesmo. Ele falou seus motivos, eu compreendi e falei os meus, e ele compreendeu; e por mais que quiséssemos salvar o que tínhamos – eu sentia isso – também sentia que era o que tinha que ser feito, que era o melhor a se fazer, que estávamos indo pelo caminho certo, como se fosse a hora de parar. Daí, começamos a formular juntos “teorias da conspiração” para dar sentido ao que estávamos vivendo e o porquê das coisas… foi como conversar com meu melhor amigo sobre outro casal, vendo de fora, sei la. Olhando pra trás… que maturidade incrível nós tivemos! Entretanto, não vou esconder que senti raiva e medo, mas eles não foram sentimentos guia…

Éramos bons juntos. Éramos demais!! Nós dois contra o mundo. E ainda somos bons separados, talvez porque ainda conseguimos falar sinceramente… diálogo! Sempre foi a chave… é clichê! Mas é muito isso. Eu mesma odeio frases clichês, mas estou eu aqui dizendo isso simplesmente por que é verdade. Esconder coisas não ajuda, não soluciona, só faz nos distanciar do outro e negar ao outro a oportunidade de escolher e decidir o que é direito dele! Defraudamos o outro quando escondemos as coisas. E aprendemos isso juntos… se machucando mesmo… isso é uma relação! contar o erro ou o que aflige e esperar a compreensão e o perdão do outro; ou não. E assim… em cada ponto de conversa decidir se vale a pena ou não continuar, se vale a pena estar junto… se vale a pena perdoar e esquecer em nome da relação. Não é fácil! Temos orgulho! Mesmo assim, tentamos, tentamos e tentamos…

O nome que eu dou a cada uma dessas escolhas diárias é amor. É amor quando a gente escolhe ficar. Quando conhecemos os erros/defeitos, aflições do outro e escolhemos mesmo assim prosseguir e acolher; quando conhecemos as imperfeições e escolhemos entender que as qualidades e os momentos bons são mais importantes; pesar na balança individual de cada um com seus valores,desejos e objetivos e decidir se ainda está equilibrado. Para mim, é assim que o amor funciona. Até o momento que não funciona mais… quando já não dá pra continuar… quando já não dá pra escolher ficar… quando os erros/defeitos e aflições mexem mais com você do que a presença do outro na sua vida.

E, olha… ta tudo bem! A gente vai mudando, aprendendo, e construindo o que queremos, se entendendo… E assim entendemos que não dava mais pra continuar, que não queríamos mais continuar escolhendo um ao outro a partir dali – ou já não vinhamos escolhendo um ao outro, ou já estávamos mesmo interessados em nós mesmos somente- perceber isso é doloroso, para ambos. Ter a atitude de colocar as cartas na mesa é pesado. E foi feito, tinha que ser feito. Talvez por isso me sinto tão conformada e ao mesmo tempo frustrada.

Grata, por tudo que construímos e vivemos, por ter tido uma pessoa tão maravilhosa em minha vida com quem aprendi infinitas coisas, que se importou verdadeiramente comigo e me honrou ate o ultimo segundo. Magoada, por não ser escolhida, por não mais poder escolher, por perceber que chegou ao fim.

Fizemos tantas promessas com certeza de amor eterno. Juntos, apesar de tudo e resolvendo tudo, juntos! Éramos parceiros… acho que ainda somos, de alguma forma. Em meio a tudo isso ainda nos resta algo… aí vem a esperança. Esperança que a gente fique bem; que entendamos nossos sentimentos; que nos respeitemos como sempre fizemos; que quem sabe tentando de novo, refazendo o caminho, corrigindo os erros, a gente possa se unir de novo. Mas… também existe o receio e a dúvida. Entendemos os nossos motivos e entendemos que precisávamos de um tempo longe. Ter isso está sendo muito bom; para refletir e significar o que cada um representa. Então… por que teimar? Por que forçar algo que vimos que estava falido? Seria isso uma loucura de amor? Ou seria simplesmente a carência falando mais alto, as emoções, os sentimentos ainda confusos…. Não dissemos que queríamos evitar isso? Que queríamos ser racionais e não sermos levados pela emoção? Escolhas sensatas! Não era isso que queríamos?

Sabe quando a gente passa o dia na praia e na volta pra casa esta sentindo as sensações das ondas no corpo? Acho que é isso… estou indo embora mas sentindo as sensações do dia. É como se estivéssemos entrado num parque de diversões juntos; encontramos coisas novas e deslumbrantes, vivemos experiências extraordinárias, ficamos muito alegres e felizes, gritamos e refletimos silenciosamente, sentimos medos e receios, alcançamos a confiança, a fé, a esperança… Mas já é noite. O parque vai fechar e é hora de arrumar as coisas e sair… me sinto grata pelo dia… por ter vivido tanta coisa diferente e me divertido tanto; mas também estou frustrada e triste porque não posso continuar no parque. Eu sei que tenho que ir embora, chegou a hora, é o momento, não da pra ficar mais… Feliz e triste, grata e magoada…

Nesse momento estou voltando pra casa – de buzu, claro, porque sou pobre. Sentindo o buzu balançar e sentada na janela sozinha lembro de tudo que vivi durante o dia… as sensações… as emoções… as descobertas… rememorando, querendo voltar no tempo, querendo que o dia recomece ou desejando voltar… algum dia quem sabe.. assim que puder. Olho para o lado e além das inúmeras pessoas no buzu lotado, tem um cara sentado olhando para janela, parece pensativo… é o meu ex… ele está no mesmo buzu que eu, no mesmo caminho, quem sabe sentindo as mesmas coisas… é bom não estar sozinha nessa; mesmo que distante fisicamente sinto que estamos juntos nessa… Estou grata por ele ter pegado o mesmo buzu que eu, por estar no mesmo caminho de volta para casa. E se ele descer num ponto antes de mim ou se eu descer um ponto ou vários pontos antes dele? Tudo bem… estou conformada. Mas a verdade é que ainda tenho esperança, la no fundo, que acabemos descendo no mesmo ponto e com sorte descobrindo que ainda pertencemos ao mesmo lugar e quem sabe até a mesma casa.

-Machado

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50 minutos

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-Escreve uma história…?

-Sobre um passarinho 

-Escrevo sim 

-Vai ser uma história pequena. 

-Ta bom… estou esperando.

-Era uma vez um passarinho… Era pequeno, e marrom 

-Marrom claro, na verdade…

-Hã ram 

-Não sabemos muito sobre a origem desse passarinho, somente que ele era marrom e pequeno 

-Marrom claro, na verdade 

-Sim…

-Dito isso, vamos prosseguir…

Chato

-O passarinho da nossa história tinha hábito de toda manhã ao nascer do sol voar em busca de alecrim 

-Eca, mal gosto desse passarinho

-Pois é

-Mas na primavera, o alecrim floresce e suas flores tem um tom azulado-purpúreo que o tal passarinho já gostava 

-Purpura é que cor mesmo  ?

-Seria o roxo, eu acho

-Vale aqui porque o passarinho não comia o alecrim quando o encontrava 

-hmmmmmmmm 

-Agora faz sentido

-Alecrim é ruim!!

-Simplesmente, ele encontrava o alecrim, toda manhã como costumeiramente, e ficava entre as suas folhagens

-Iai ?

-Pois bem…

-Chato

-Ao final do dia, o nosso protagonista retirava um talo de alecrim e o levava de voltapara sua habitação 

-Todo dia

-Sem falta 

-Essa era a rotina incansável do nosso passarinho marrom 

-Marrom claro, na verdade

-Marrom claro, na verdade 

-Certo dia, em uma bela manhã- como quase todas- o passarinho viajou em direção ao campo de alecrins; onde era e sempre encontrava sua planta preferida 

-No entanto, ele teve uma grande surpresa…

-Acabou o alecrim!

-Contaaaaaaaaaa

-AAAAAAAAAAAH 

-Por mais distante que os olhos do pequeno passarinho podia olhar, no lugar onde se via léguas e léguas de alecrim…

-Agora só se via, algo que parecia água…

-Por todo lado água 

-UAAAAAAAAAU

-Era como um espelho d’água que refletia o céu azul 

-Iai

-Iai

-Iai

-Iaiiiiiiiiiiiiiiiiiii???

-O passarinho enquanto voava, perplexo sem entender o que havia acontecido, ao olhar para baixo via seu reflexo, via que era um passarinho marrom…

-Marrom claro, na verdade 

-Iai ?

-Então, ele continuou a voar em frente

-E voar, voar…

-Até onde ele pensava ser o limite de onde já estivera 

-Mas não se via nada além  do que um mar azul celeste abaixo de si…

-IAAAAIIIIIIIIIIIIIIII????

-Sem arvores, sem nada, só água e céu 

-Iai, morreu ?

-O passarinho então resolveu voltar pelo caminho que viera 

-Iai, cansou…

-E morreu!

-Era fácil, como estivera voando em linha reta todo esse tempo, era só dar meia volta e seguir direto 

-Iaaaaiiii 

-Nosso amigo da história não havia contado com o cansaço da viagem 

-E omo era esperado, hão havendo onde repousar, acabou sucumbindo à fadiga…

-E com o coração aflito, caiu no mar aguado, desfalecendo completamente os sentidos…

-De repente, seus olhos se abrem 

-O que esses olhos vêm são ramos e mais ramos de alecrim, folhas verdes e flores azuis-purpúrea 

-AAAAAAAAAAAh 

-Ele morreu 

-E foi pro céu 

-Era mais outra bela manhã, onde nosso passarinho marrom havia de ir em busca de seu sonho, o orvalho do mar, o alecrim…

-Marrom claro, na verdade…

-O QUE ??

-Fim

-Orvalho do mar… existe isso ?

-Alecrim em latim quer dizer orvalho do mar…

ps:

-Eeeei!!! Mas a história não foi assim!!

-Eu escrevo a história! Eu conto como eu quiser! 

-Machado e G

“A violência pode acontecer no segundo seguinte ao riso”

Leia o relato da jornalista paulistana Camila Caringe, 30 anos, sobre a violência que sofreu em casa, da pessoa que amava e com quem convivia diariamente.

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Filme A Barraca do Beijo,2018. Direção: Vince Marcello

 

“Foi só um arranhão. Primeiro ele me arranhou, mas foi só de leve. Ele não queria. Eu fui teimosa, ele não gostou, me pegou pelo braço, puxou, marcou um pouco, mas foi só isso. Um arranhão. Ele pediu desculpas. Estava nervoso. No outro dia foi uma mordida. Se fosse, sei lá, de um estranho, eu diria ‘Foi agressão’. Mas era ele. Meu melhor amigo, meu amor, meu namorado. A gente sempre se mordia brincando ou transando. Naquele dia foi na briga. Ele ficou bravo, me mandou embora, eu fui. Quando me virei de costas, ele pulou em cima de mim e mordeu meu ombro. Ficou a marca dos dentes. Mas eu não tinha certeza sobre o que aquilo significava. Era ele, não um estranho. Tudo bem. Foi só uma mordida. Numa noite, ele puxou meu cabelo. Mas também fazia isso quando me beijava. Era confuso. Quando tentei me afastar, ele jogou o sofá na minha frente e fechou minha passagem. Mas estava nervoso.

Lentamente, fui perdendo o referencial. O que era agressão foi ficando difuso, sem limites. Fosse um estranho, eu saberia dizer. Com ele não. Éramos amigos, depois amantes, era uma relação ímpar, uma intimidade sem precedentes, eu sentia a dor dele, ele sentia a minha, estávamos sempre juntos. A fronteira de onde terminava um e começava o outro havia sido borrada fazia tempos, quando ele sentia ciúme dos meus amigos sutilmente e orientava onde eu estaria e com quem, a que horas, pra quê. Aquele primeiro arranhão, pensando agora, inaugurou uma nova fase da nossa relação. Uma etapa na qual eu abriria a porta da cozinha e o veria riscar o próprio braço com uma das minhas facas. Meu amigo de infância, o menino dos meus olhos, foi lentamente virando meu raptor. Convivíamos desde os 9 anos de idade, crescemos juntos, mas eu não o conhecia.

Algumas pessoas acham que existe uma certa conivência ou voluntariedade na submissão em um relacionamento abusivo. Não. O que há é uma tentativa ingênua de negociação que nunca avança, porque sempre para no meio do caminho. Enxergar um homem que é capaz de atrocidades, mas também de docilidades, que se ergue e se rende como qualquer ser humano. Mas vai mais alto quando se levanta. E mais baixo quando desce.

Como sou jornalista, ele me dizia que tinha muito medo de que um dia eu contasse a nossa história, que alguém soubesse o que ele fez comigo, que isso ficasse de alguma maneira registrado na trajetória dele. Na época, claro, não havia intenção. E se conto hoje que um dia ele deslocou os ossos de três dedos da minha mão direita com um chute não é por vingança ou para afligi-lo. Mas para dizer a quem não entende o que ele gostaria que eu dissesse sobre ele: o meu agressor é capaz de gestos generosos e solidários. Ele é simpático e bem-humorado. A parte que ele não gostaria que eu contasse é que agressores não são monstros o tempo todo. E que a violência pode acontecer no segundo seguinte ao riso, sem motivo, porque o gás acabou ou porque o barulho das teclas que digito o irritou. Um homem violento pode fazer coisas boas. E fazer coisas das quais não tenho notícia nem no extremo da selvageria: bater na mulher que está esperando um filho dele.

Por mais contraditório que possa parecer, ele me ajudou quando me engravidou. O afeto que primeiro me paralisou acabou por mobilizar. Aos cinco meses de gestação, ele me jogou no chão e sentou em cima da minha barriga. Aos oito, lançou um sapato no meu rosto que deixou a marca da sola no lado esquerdo. Aos nove, arrombou a porta do banheiro para onde corri, segurou meu cabelo e bateu minha cabeça na parede seguidas vezes. Quando minha filha completou 6 meses, meu amor pela criança superou em muito minha paciência com ele. Ficou claro que eu era a chance que ela tinha de ter uma vida equilibrada, sadia. Então fiz o que precisava fazer: me separei dele.

Se ele lesse este texto antes, não aprovaria. Ele gostaria que você soubesse que ele não é uma pessoa ruim. E eu ressalto: as pessoas não se dividem em grupos de boas e más. Agressores são homens comuns, socialmente produtivos, trabalhadores, contribuintes, risonhos. O conjunto de crenças, o grau de inconsciência e as motivações que levam um homem a agredir são muitas, variáveis, complexas e imprevisíveis. Eu faço o que posso, escrevo para as mulheres. O que nos leva a um relacionamento abusivo também é difícil de explicar. Somos das mais diferentes origens, já que a violência doméstica é bastante democrática. Mas uma vez em relacionamento violento, não existem muitos caminhos. Eu diria que são dois, basicamente: a morte ou a saída. Enquanto você está viva, há saída, mesmo quando parece que não.

Admito: um dia chorei achando que pra mim não havia mais, que eu morreria sufocada pelas mãos que apertavam meu pescoço fazendo ameaças. E poderia ter morrido.

Não é por escolha que uma mulher é abusada. Mas só uma decisão firme e lúcida pode tirá-la do lugar estreito. É o que eu desejo para a nossa filha. Que ela busque lugares amplos quando se vir em um lugar estreito. É o que eu desejo para todas as mulheres. Mas para ela, especificamente, quero ser o exemplo.”

Retirado de: Nova COSMOPOLITAN 

Relato pessoal: sou aos 18 o que esperava ser aos 12?

Escrevi uma carta pro futuro para mim quando eu tinha 12 anos. Bom… este foi o ano de abri-la e depois de 6 anos e um pouquinho a surpresa: minha vida continua “maluca, corrida e estranha” como a eu de 12 anos descreveu. Nada mudou. Não em relação ao contexto geral. Claro, que hoje estou na faculdade e não no ensino fundamental, ainda tenho algumas amigas do passado, arranjei outr@s amig@s, uns abusivos outros não, assim como antigamente. O amor platônico que eu tinha saiu do armário. E eu achando que aquela primeira paixão avassaladora seria eterna! Ri da inocência das coisas que escrevi, depois as desejei de volta. Apesar da vida continuar na mesma, tenho a sensação que era mais feliz naquela época! Mas, será mesmo?

Eu tinha pouca idade, mas, já passava por tantos pormenores, e aquilo tudo era muito duro para mim. Hoje, com outra cabeça, não me abalaria tanto com os acontecimentos, contudo, sei que foi a adaptação causada pelas pisadas da vida. Aquela menina de 12 anos não fazia ideia do que ainda estava por vir de bom ou ruim.

Na carta há tantas esperanças! mesmo com tudo tão turvo e incompreensível, com tantos medos sobre o que me esperava no futuro. Penso: “Onde está essa esperança?”, “Onde foi parar a minha fé?”. Hoje em dia, eu só vou vivendo sem maiores expectativas. Cansei de me decepcionar. Hoje em dia, eu espero tudo de todo mundo. As pessoas provaram ser totalmente imprevisíveis. Ao longo desses 6 anos eu descobri, aprendi e resisti a tantas controversas humanas.

Ao olhar para trás, a maioria das minhas amigas eram abusivas, e eu as amava com meu coraçãozinho ingênuo e me sentia um lixo por nunca ser o suficiente para elas. Como é estranho olhar para trás e perceber que as relações fraternais, parentais, amorosas que tive e que ainda tenho, cada uma delas foi colocando um tijolinho a minha volta e eu fui me escondendo e me isolando da vida, das pessoas, do sentimentos, fui me protegendo, me distanciando e BANG!!!! Quando vi, 6 anos depois tenho tantos problemas de saúde mental que eu nem sei…

Antes de iniciar a terapia e até no inicio, eu vivia me perguntando como vim parar aqui. Agora, depois de tantos aprendizados, eu entendo, compreendo, consigo enxergar como cada situação contribuiu. Mas, sabe qual a parte mais chata? Ter consciência do problema não resolve o problema. E mesmo que eu possa reconhecer, eu não consigo sair!

Não tem noção de como é difícil desfazer crenças autodestrutivas que as pessoas a nossa volta regaram e nos ensinaram a regar e tudo passou a ser um processo automático. É como se fosse o certo a fazer, me menosprezar e diminuir, porque foi assim que eu aprendi a lidar comigo, a me enxergar. Ao longo dos anos, as relações abusivas me fizeram acreditar nisso, eu insegura e vulnerável (…), acreditei . Ainda consigo ouvir as palavras das pessoas, consigo ver os rostos delas, consigo ver o olhar de desprezo estampado na cara, consigo me ver implorando por atenção e pedindo desculpas por ser eu mesma, como se ser eu fosse a coisa mais errada do mundo, e assim eu cresci acreditando. Ser eu é ser a pior pessoa do mundo. E como eu não conseguia me desvencilhar de mim, me odiei, odiei tudo em mim e ainda odeio( não tanto quanto antes, a terapia tem me ajudado muito nisso), odeio tudo que diz respeito a mim e não reconheço nenhuma das minhas conquistas. Para mim, todas elas foram pura sorte. Se alguém gosta de mim e me diz isso, ou me presenteia, me sino muito mal, porque não mereço nada disso, não sou digna de afeto, eu não sou uma pessoa boa, eu não presto!!! E ainda sou uma ótima atriz, falsa, porque consigo fazer as pessoas acreditarem que existem coisas boas aqui, no entanto, eu sou um grande vaso de merda. Atriz. Atriz em meu próprio corpo, foi o que sempre achei de mim, tanto por fingir sentir, ser amável, educada e tanto por nunca fazer nada que eu realmente queria, que realmente gostaria, que realmente me fizesse bem, passei a vida me anulando, fazendo o que as pessoas queriam, sejam eles quem quer que sejam. Minhas vontades e desejos sempre foram indignos de serem realizados, eu alimentei isso, as pessoas a minha volta alimentaram isso. Aprendi a me renunciar. Aprendi a não criar gostos, a não alimentar desejos, expectativas, pensamentos , opiniões, porque normalmente eles não eram levados em conta, eram totalmente menosprezados, se diluíam em mais dor e decepção. Passei todos esses anos olhando pra baixo e odiando a imagem no espelho, me sentindo feia, incapaz, insuficiente, louca, louca, porque era assim que me diziam que eu era quando eu deixava escapar minha espontaneidade, minha vontade de sair da caixinha e viver, sentir o sol, só um pouquinho. Me tornei indiferente. Tanto faz se coisas boas ou ruins acontecem, na verdade elas não tem mais esse nome pra mim, “bom” ou “ruim”, é só mais um acontecimento. “LOUCA. IDIOTA. Volta pra caixinha! Quantas opiniões ridículas! Que forma de pensar mais sem noção! Será que de você não sai nada de bom?” Não, não sai… é melhor eu ficar quietinha no meu canto e passar despercebida. Ser vista dói. E por mais que ficasse na minha, vinham as calúnias, as mentiras espalhadas, as amigas falsas, e a cada descoberta delas, eu desacreditava na vida, cada vez que eu vivia e entendia a maldade das pessoas, seja a minha volta, seja nos jornais as minhas esperanças quanto a bondade a humana desciam todas pelos ralo. Meu mundinho encantado da menina de 12 anos sumiu. Me vi dentro daquele lixo, afinal, eu sou humana e odiava minha humanidade, ela era a causa deu não conseguir fazer nada correto, nada de bom, por mais que tentasse com todas as forças, meus esforços valiam nada. Ainda bem que eu tinha pessoas muito amorosas a minha volta para reforçar mais isso, você não pode, não consegue, olhe só pra você, é mesmo uma idiota, ridícula, como pensou que poderia ao menos tentar? Me poupe da sua existência. E assim venho tentando poupar as pessoas de mim, dos meus pensamentos, opiniões, da minha aparência e da minha presença. Cada dia mais o mundo é estranho e inóspito para mim. Cada dia mais tudo que se distancia do meu colchão e dos meus olhos fechados, me corroem; abrir os olhos dói, sentir que ainda estou viva quando acordo é quase insuportável. Me perdoe Machado de 12 anos, mas não sou o sexo forte e decidido que você esperava ser nessa idade.

-Machado

Ps: Escrevi este texto a um bom tempo atrás e percebo que certas percepções sobre mim estão mais positivas, digamos. Lidar com a Depressão é um processo, ainda estou aprendendo. Contudo, sigo com minha companheira, fiel, não sei se por hora ou para sempre. Num dia somos amigas, noutro inimigas, em um dia nos dispomos a nos conhecer um pouco, em um outro somos completas desconhecidas e a cada dia convivemos, melhor dizendo, EU sobrevivo a ela.

Quando eu acordar eu sei

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Yiruma – Moonlight

Quando eu acordar, eu sei, que tudo estará tão bem

Quando eu a-cordar as pessoas serão compreensivas

Quando eu acordar, quando eu voltar de mim, eu sei, eu sei, vai haver um mundo melhor, eu sei, as pessoas vão sorrir, pra… si e não vão lembrar de mim

Que alegria!

Quando eu acordar, eu sei, que esse quarto não vai existir e aquelas pinturas ali, serão reais

Vai dar tudo certo quando eu acordar,

Eu sei que vai dar-tu-do certo

Até lá eu pre-ci-so dormir

E eu vou…

dormir…

pra… mim

Quando eu acordar, eu sei, que a rainha vai surgir, vai me abraçar, eu sei, vai me ajudar a fugir daqui, vai sim… e eu sei que vai… e eu sei que vai sim…. suspiro*

Quando eu a-cor-dar, alguém me entenderá, Quando eu acordar, eu não vou mais precisar falar,

Quando eu acordar, eu sei, que não vou estar mais aqui, um lindo universo eu sei, serei a moça mais gentil dali,

Quando eu acordar, eu sei, que a-qui eu continuo a dormir, realizei meu sonho eu sei,

que era daqui sumir,

dormir…

– Machado

Preciso dormir

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Ouça “Preciso Dormir”

Porque quando eu durmo não tenho consciência

Porque quando eu durmo, eu não existo pra mim

Quando eu durmo eu não me preocupo, eu não penso…. Eu só durmo

*Suspiros

Sou limbo, sou esquecimento, sou nada, um nada puro, um nada inconsciente quando eu durmo

Quando eu durmo eu não sei quem sou quais problemas tenho… Eu não sei. Eu nem sei que não sei. Eu não lembro de nada e nem sei que não lembro.

Quando eu durmo, eu mal preciso respirar… Eu não preciso comer… eu não preciso enxergar…

Aaah! Quão bom é dormir

Preciso

Preciso dessa sensação maravilhosa pra sempre

Aah… os mortos…

Eles sabem

Preciso…

Dessa satisfação eterna

-Machado